Pois então, nobres confederados. Depois de longa e inesperada pausa, decidimos tomar vergonha na cara e retomar as atividades nesse digníssimo blog, voltando a registrar aqui momentos históricos da mui leal e valerosa Cofatruco. Nessa parada inesperada - e motivada, pelo menos no caso deste escriba, por motivos de preguiça maior - acabamos deixando penduradas algumas súmulas programadas, em especial o segundo post do confronto entre Böes e Pasqualetto. Recordando para quem está com preguiça de descer até o post anterior, esse confronto, válido pela decisão da Série A2, reunia dois trucadores novos mas talentosos e aguerridos, e entrou sem pedir licença na lista dos grandes cotejos da história da Entidade. Pasqualetto, a essa altura, já tinha garantido a honra de ser a primeira moça de sexo feminino a arejar o ambiente da Superliga, trazendo beleza e charme aos jogos e aliviando sobremaneira o cheiro de cueca que recendia dos confrontos usuais da competição. Já Böes, o Holandês Voador, vinha aos poucos se consolidando como trucador respeitável e talentoso nas artimanhas do blefe, de modo que a disputa do título era mais uma confirmação do seu considerável potencial. A súmula abaixo, redigida por esse que vos escreve, refere-se ao segundo jogo da decisão em melhor-de-três - e acreditem, confederados(as), foi um jogo incrível, daqueles que quem testemunhou não esquece. Ajeite-se na cadeira giratória e prepare-se, porque lá vai:
SÉRIE A2 DA SUPERLIGA FABICANA DE TRUCO
21/06/2006
FINAIS – SEGUNDA VOLTA
PASQUALETTO 21 x 17 BÖES
PÚBLICO: 08 (07 pagantes)
JUIZ: Natusch
O JOGO: O clima era tenso. Depois da vitória de Böes no primeiro duelo da grande final, a responsabilidade era jogada sobre Pasqualetto, que precisava vencer para garantir o terceiro jogo e ainda ter chances de conquistar a taça. Havia eletricidade no ar: os gatos do jardim de inverno não miavam, as pulgas dos sofás do dacom não pulavam, e mesmo os fabicanos presentes mantinham um respeitoso e incomum silêncio. O morador de Viamão parecia confiante de que a contenda se encerraria naquela hora mesmo, e já começou pedindo envido e cantando bem alto seus 28 pontos, para desolação de sua oponente. A rodada inicial é toda de Böes, e se encerra com a pobre Pasqualetto fazendo gubes gubes na piscina do Tio Patinhas. Na segunda rodada, Böes canta a flor e leva o truco, e ao fim de míseras duas rodadas o placar já marcava estrepitosos 8 a 0 para o defensor ferrenho de Júpiter Maçã. Perceba o(a) leitor(a) que a situação de Pasqualetto era dramática: tendo perdido o primeiro match e tomando semelhante lavada no segundo, era visível a ansiedade e a desolação no semblante da normalmente sorridente atleta, que via a chance do título escapar por entre os dedos. O resultado anímico não foi nada bom para a trucadora, e isso fica visível na terceira volta, quando Pasqualetto hesita e perde uma grande chance de somar pontos, a própria jogadora afirmando: “demorei muito para blefar, né?”. Böes, seguro com a larga vantagem, mostra-se extremamente bem humorado, bravateando sem reservas e chegando ao requinte de afirmar com todas as letras: “Se não ganhar essa, eu desisto do título”. No entanto, ignorava Böes que, além dos peixes, os fãs do autor de “A Marchinha Psicótica do Dr. Soup” também podem morrer pela boca. De fato, Pasqualetto começa a engendrar uma lenta mas resoluta reação, revezando manilhas bem aplicadas (na quinta rodada, ostentando um pauzão de dar galo em cabeça de busto de mármore) e envidos de boa magnitude, o que colocou o outrora hilário Böes em posição bem mais séria e meditativa. Na sétima rodada, já tínhamos 11 a 8 para Böes, e a torcida norueguesa começa a fazer muito barulho no estádio, animada com a visível recuperação da representante do clã Pasqualetto, uma das mais temidas linhagens guerreiras do fiordes de Buskerud. Na nona rodada, o cheiro de canela toma conta do ar, e a sorridente Pasqualetto canta altaneira uma flor de paus manilhada, que põe Böes para correr e diminui a diferença para um único pontinho. Na volta seguinte, Böes evoca sua essência interior e parte para o ataque, somando três tentos e assinalando 16 a 12 no placar. A seguir, Pasqualetto grita mais alto, e na base dos não-quero do adversário reequilibra em 16 a 15. Lá vem a décima terceira rodada, aquela que Zagallo diria ser sua favorita se jogasse truco gaudério, e todos silenciam para ver o que sairá desse confronto de gigantes. Mal sabiam eles o que viria a seguir – na verdade, algo tão espetacular que merece até um novo parágrafo.
Pasqualetto distribui as cartas. Böes ergue as três que o cabem, olha para elas, olha de novo, pisca, olha uma vez mais e então sorri. Solta um suspiro de campeão e canta a flor, exultante, com segurança e mal disfarçada euforia. A torcida norueguesa fica cabisbaixa, e os comentaristas já enchem os pulmões para tecerem comentários sobre o mais novo campeão da Cofatruco. Pasqualetto, por sua vez, olha para suas três cartinhas, olha de novo, pisca, olha uma vez mais e então sorri. O “CONTRA FLOR!” sai estridente, emocionado, como um suspiro de alívio de quem acaba de sair do mar tomado de tubarões. Um instante de perplexidade e, então, a euforia. É como se o mundo ficasse subitamente louco. A torcida norueguesa entra em êxtase, ameaça derrubar o alambrado, e o juiz é forçado a erguer a voz, conclamando todos à ordem para que a partida possa ter prosseguimento. Böes está surpreso com a resposta de Pasqualetto, mas não parece exatamente desconcertado. Dedica-se a uma atividade frenética: contar os pontos que tem na mão. Pensa, reflete, pondera, e por fim pronuncia um “quero” confiante, antes de declamar os trinta e dois que carrega na mão. O mundo silencia. Não há um único som – o Universo fica calado, esperando o desfecho daquela situação inusitada. E eis que Pasqualetto sorri uma vez mais, ergue-se um pouco na cadeira, e declama emocionada os trinta e três que carrega na mão. É a vitória de Pasqualetto, e a Noruega mergulha em uma festa sem precedentes. Böes engole em seco, e ergue-se desolado da mesa, tentando racionalizar como foi possível a derrota em tais circunstâncias. Foi um épico, uma odisséia, algo digno de registro a ouro nos anais da Cofatruco. Poucas vezes se viu final de jogo tão tenso, tão emocionante e inusitado – e poucas vezes registrou-se tal recuperação de um atleta, ressurgindo como Fênix num momento em que muitos perderiam a esperança. Depois da epopéia, desnecessário dizer que Pasqualetto tem toda a vantagem anímica para a terceira e decisiva batalha – que, se for como foi essa disputa que ora relatamos, periga até tirar a Terra de órbita. Aguardemos, pois.
Os arqueólogos contratados pela Cofatruco estão trabalhando diuturnamente em busca da súmula relativa ao terceiro e decisivo match de Böes x Pasqualetto - a ideia, se possível, é publicá-la no próximo final de semana. Mas, enquanto a receita milionária que estamos desviando não resulta na redescoberta deste documento histórico, certamente não nos faltarão opções dignas para ir preenchendo esse espaço. Podem ficar tranquilos, que a ideia agora é manter ao máximo a periodicidade, e novos posts com as súmulas do passado glorioso da Entidade não nos haverão de faltar. Abraços entusiasmados a todos os cofatruqueños.
Quero, e vale quatro
Natusch